tempo livre, campo limpo

A interiorização dos mecanismos de poder instaurou-nos em um constante estado de alerta, de conexão, de produtividade. As fronteiras se desmancharam e quase não distinguimos mais o tempo do ócio e do ofício, o tempo do sonho e do brainstorming. O dito “tempo livre” contém em si mesmo a amarra e o fascínio: nele repetem-se as mesmas condições de produção da qual já nascemos inseridos – não livres, portanto. Uma vez que o tempo em que se está livre do trabalho tem por função restaurar a força de trabalho, este não é mais tão livre assim. Liberdade organizada é coercitiva, segundo Adorno.

Talvez seja preciso repensar este tal de tempo livre. Acreditamos que devemos construir e imaginar outras modalidades de tempos possíveis. Inventar dispositivos capazes de disparar outras sensibilidades, outras percepções e outras formas de sociabilidade: tempos de prazer, tempos de memória, tempos como que fora do tempo, tempos da finitude e tempos por si só, tempo.

Um simples guardrail metálico é capaz de transformar uma rua. Fecha-se o acesso à avenida principal, transforma-a em rua sem saída. Este despropositado dispositivo encontra-se no Campo Limpo – região proposta para este trabalho e como nos disse uma antiga moradora, Dona Maria, “onde falta tudo”.

Trata-se, portanto, de não reduzir as múltiplas possibilidades de abordagens da temática proposta – através das ilusórias questões que caracterizam o “tempo livre” – e sim, de potencializar, torcer, destorcer, recriar e ressignificar infraestruturas e elementos urbanos, normalmente associados exclusivamente ao trabalho ou ao lazer.

Estes distintas tempos possíveis encontram-se tanto no modesto guardrail, quanto nos três dispositivos propostos: ônibus grátis e equipado com dispositivo de gravação e reprodução de histórias, a incrível roda-gigante e a constelação de mobiliários erosivos e finitos.

Os dispositivos foram implantados de maneira estratégica na região do campo limpo, a partir de um raio de dois quilômetros, tendo como centro o Metrô Campo Limpo, de modo a espraiar-se pelo território, aproveitando-se da topografia e das visuais, praças e vias existentes. A lógica de implantação divide-se em três vetores, o linear, representando as diferentes rotas dos ônibus, o monumental, representado pela roda-gigante no ponto mais alto do bairro e o pulverizado, representado pela constelação de mobiliários.

processo

ônibus-relato: Adaptado a partir do chassi de um micro-ônibus, o que facilita o acesso às ruas mais estreitas, o Ônibus Grátis subverte a experiência de uma condução comum tranformando o deslocamento em um passeio. Seus percursos circulares e sinuosos cobrem um raio de dois quilômetros e não respeitam necessariamente os limites estabelecidos por grades e muros. Cada assento é equipado com um telefone para gravar histórias com até um minuto de duração – que são georreferenciadas e armazenadas, de modo que possam ser ouvidas em lugares próximos de onde foram contadas. Esse conjuto de narrativas será mais um mecanismo de construção da identidade do bairro.

banco de areia: Construído com pedra-sabão, material que sofre deterioração aparente com as intempéries do ambiente urbano. Monolíticos e modulares, os bancos irão adquirir outras formas com o uso continuado, testemunhas da passagem do tempo em cada um dos lugares do bairro em que serão implantados. Parte do mobiliário, um totem marcará a presença da intervenção com iluminação própria, tomadas e wi-fi.

ócio-gigante: Com 50 metros de diâmetro e implantada 40 metros acima da Av. Celso Garcia, a Incrível Roda-Gigante é um marco na paisagem e pode ser vista de toda a região do Campo Limpo. O percurso completo, que demora 30 minutos, cria um momento de suspensão temporal, longe dos ruídos da cidade. A infraestrutura da roda, com espaço para fila e banheiros, é enterrada, permitindo uma praça na cobertura no mesmo nível da rua e a arquibancada para o campinho de futebol, em um nível intermediário. O acesso pode ser feito pelo funicular ou por um escadão.