Onírica – Reporte de Sessão
4 Apr
Então pessoal, ontem aproveitei que um grande amigo meu estava de passagem na cidade, juntei com meu irmão e outro amigo e experimentamos o Onírica. Logo de cara tive a primeira dificuldade do playtest, tentando explicar sobre o que era o jogo. Nenhum deles tinha assistido ao filme Duble de Anjo - e isso não é crime algum -, nem conheciam as ilustrações do Moebius e - aquele que eu acredito ser o maior problema - eu não me esmerei muito para delimitar isso no pdf, ou mesmo na minha cabeça.
Acredito que sonho é uma palavra ruim. Sim, a narrativa é Onírica, mas não é só isso. O objetivo não é narrar um jogo sobre um sonho qualquer, mas sobre um mundo onírico, mutante, num estilo épico. Na segunda versão vou procurar uma definição melhor, talvez puxando para um mitológico-pastiche. Ou quem sabe delimitar um proto-cenário como no 3:16.
A criação do personagem também foi sofrida. Não sei se os jogadores que estavam enferrujados - fazia tempo que não jogavam - mas alguns demoraram para conseguir encontrar os 3 aspectos dos personagens. Porém o resultado foi muito satisfatório. O primeiro era um humano com um tipo de casa orgânica preso as costas - como se fosse uma mochila 3 vezes maior do que ele. Essa "casa" tinha orifícios por onde saiam perfumes variados - isso não foi um eufemismo. O segundo era uma figura onírica, daquelas que a qual não se consegue estabelecer uma forma. Era humanóide, mas sabe quando você não consegue lembrar do rosto da pessoa? Então, isso acontecia mesmo quando você olhava para ele. O último, porém não menos importante, tinha a pela recoberta de plantas e pequenos fungos.
Primeiro pensei em estabelecer três perguntas, não definitivas, mas que pudessem ser lançadas caso o jogador não tenha idéia alguma do personagem. Outra que me ocorreu - e a que tenho intenção de desenvolver - é que o jogador procure palavras na mesa do caos para formar seus aspectos.
Os personagens faziam parte de tribos de diferentes dimensões que se reuniram devido a o anúncio de uma tempestade. O debate durou 20 anos e durante este tempo nenhuma palavra foi proferida pelos anciões. Porém ao término eles já tinham uma resposta: seus melhores guerreiros deveriam partir em uma busca ao grande bisonte-do-tamanho-de-um-universo.
Pedi aqui uma jogada de engenhosidade por parte de cada um deles para ver o que eles sabiam sobre o bisonte. Meu irmão teve um sucesso, com 5 apostas, e afirmou que o Bisonte se alimentava de estrelas, que rumava para o norte, e em suas costas carregava uma caixa, aonde estava o segredo do universo e que ele podia assumir a forma humana. CAIXA foi a palavra que ele pescou da tábua. Daqui para frente vou deixar as palavras utilizadas na jogada em caixa alta ;D. Meu amigo fez 2 apostas e disse que o segredo da caixa traria o fim do universo, e que o único jeito de encontrar o Bisonte era não procurá-lo (wtf?!). O outro teve só uma aposta e afirmou que Ele deixava LEDs pelo caminho.
Os personagens resolveram partir para o Sul, mesmo afirmando/sabendo que o Bisonte estava rumando para o norte. Segundo eles o Ser apareceria durante a viagem, já que ele não deveria ser procurado. Seguindo por seu caminho o grupo se deparou com um grande canion de profundezas quilométricas, de onde se ouvia um sibilar incomum. O jogador do personagem das plantas saca a palavra GRANDE e utilizando de seu poder Impressionante, coloca seu polegar numa poça de água e faz brotar uma floresta na paisagem desértica, nascendo secóias do abismo para eles passarem. Infelizmente o Vulto, em um teste fracassado de Vigor, acaba por dispersar alguns pólipos de uma planta que ele esbarrou durante a travessia. Nesse momento eu saquei a palavra COBRA e fiz emergir uma serpente gigantesca do abismo para atacar os personagens. O Vulto e o Caramujo - vou chama-los assim para facilitar - foram atingidos pela serpente fazendo com que um dos aspectos do último fosse destruído. Numa jogada de Engenhosidade nosso amigo Planta definiu que a Serpente os engoliu, e que ela era um portal para outra dimensão, aonde estava preso o Bisonte e outros DEUSES.
Como os jogadores haviam tido mais sucessos do que letras da palavra COBRA decidi por bem que ela teria sido destruída durante a luta e de suas entranhas sairam uma manada de deuses bisontes liderados pelo grande bisonte do tamanho de um universo. Somente uma das ações dos personagens foi belicosa, mas eles utilizaram de outros artifícios para resolver o problema. Acredito que na próxima versão vou adicionar uma mecânica para a geração de cenas através do Caos, que além de definir o tema - palavra - define a dificuldade da cena - número de letras. Ainda posso dar ao narrador um número de pontos fixos - x vezes número de jogadores - para ele aumentar a dificuldade caso ache necessário.
Pegos desprevenidos pela manada os personagens acabam não conseguindo se aproximar do Grande bisonte que foge. Para não perde-lo eles montam nos bisontes menores que estão seguindo seu líder. A manada não para de brotar por 5 dias e 5 noites e os personagens o seguem perseguindo por semanas a fio, sem nunca descançar.
Aqui os jogadores estavam sem idéias do que fazer, então abri uma nova mesa de caos e joguei uma matilha de LuPiNOS, que começaram a abater um por um dos bisontes menores. Não me lembro de todas as jogadas, mas houveram muitas falhas - os jogadores apostavam muito e acabavam ficando sem nada.
No meio de todo o caos os lobos atacaram o Deus Bisão, numa jogada competida. Descobrimos então que os lobos eram banguelas (wtf2), porém sua baba era ácida. Os lobos consumiram o Bisonte, porém a energia liberada foi tanta que formou um vórtice para o futuro de onde saiu uma gigantesca espaçonave. Uma nave menor foi lançada a terra e de dentro dela saíram uma pequena comitiva de seres em uma reluzente armadura, liderados por um homem decorado com plumas, montado em um cavalo. Eles anunciaram estar a serviço da CAPELA e vinham para trazer o conhecimento ao povo bárbaro daquela dimensão.
Ok! Aqui neste ponto era para termos uma última batalha, entre os três contra a caravela espacial. Porém meus queridos jogadores formaram a palavra TELEGRAMA no caos!!! Os caras juntaram uns 15 dados numa jogada só. Sabendo que eles podiam apostar 4 dados tranquilamente e sobrarem 11 verdades, peguei 6 dos meus 9 dados e fiz somente 3 apostas. No fim nós dois superamos a dificuldade 10, porém eu tive o maior resultado deixando eles somente com metade das verdades (5) e eu com minhas 3.
Por fim os jogadores afirmaram que este grupo de pessoas tinham a verdade do universo. Eu disse que porém eles só entregariam para o líder daquela dimensão. Os jogadores utilizaram outra aposta para dizer que eles convenceram eles que o Caramujo era a pessoa que eles procuravam. O segredo então foi proferido pelo cavaleiro, mas sem palavras. O universo todo começou a vibrar em determinada frequência e tudo fez sentido e deixou de existir. Em sua última verdade os jogadores recriaram o universo e colocaram a nova Verdade dentro de um telegrama.
Sim, eu não poderia ter destruído o universo com uma verdade, mas já estavamos em duas horas de jogo e o pessoal tinha que ir. O sistema funcionou como eu esperava? Não. Foi divertido? Muito. Algumas considerações:
- O sistema de Atitudes ficou confuso! Acredito que ele não foi bem delimitado e que a nomenclatura não é tão sugestiva quanto eu imaginei. Os jogadores gostaram, mas em vários momentos não consegui alinhar duas atitudes para somar os dados. Vou trabalhar neste ponto para a próxima versão.
- O sistema de apostas roubado do House of the Blooded é foda, mas não achei que ele funcionou muito bem para este jogo. No fim, em todas as jogadas os jogadores recorrem a mecânica do Caos, e a palavra-chave - que deveria ser o tema central daquela ação - acaba sendo um detalhe em uma das verdades.
- Palavras aleatórias são legais e devem ser melhor utilizadas. No princípio não vi todas as possibilidades que elas traziam, mas prometo ampliar sua utilização na próxima versão.
Sobre a próxima versão. Inspirado pelo Malditos! do Camilo, estou pensando seriamente em fazer uma micro tiragem - cerca de 20 cópias - do Onírica para vender. Nela viriam um livreto tamanho A6 com as regras revisadas, ilustrações, textos - para ajudar o mestre e os jogadores entrarem no clima do sistema - e provavelmente um conjunto de 16 dados com letras do alfabeto para a mesa do Caos. Seguindo a tendência, disponibilizaria um pdf grátis na web, com editoração mais simples e - obviamente - sem os dados. Assim que tiver uma idéia melhor dos custos e prazos posto aqui para vocês.
Obrigado a todos que leram este reporte de sessão e espero que tenham gostado. Gostaria de saber o que vocês acharam, portanto não se intimidem ;)

